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Comissão precisa ter mais atitude, afirma Marcelo Rubens Paiva

Comissão precisa ter "mais atitude", afirma Marcelo Rubens Paiva

Para filho de desaparecido político, grupo que investiga crimes da ditadura deve "caçar os verdadeiros gângsteres"

Documento que indica morte no Exército não encerra o caso; segundo escritor, falta achar o corpo e ouvir os algozes

PATRÍCIA BRITTO DE SÃO PAULO PAULO WERNECK EDITOR DA “ILUSTRÍSSIMA”

"A Comissão Nacional da Verdade é muito tímida", disse o escritor Marcelo Rubens Paiva, 53, em entrevista à Folha, em seu apartamento em São Paulo. O filho do deputado cassado Rubens Paiva, um dos principais desaparecidos políticos da ditadura militar (1964-1985), afirmou que esperava um "pouco mais de atitude" do grupo que investiga os crimes do Estado.

Um exemplo é o recente episódio da morte do coronel Júlio Miguel Molinas, em novembro. A família recebeu a informação de que, tão logo Molinas morreu, o Exército recolheu em sua casa caixas que conteriam documentos sobre crimes da ditadura.

A comissão recebeu desse arquivo documentos referentes aos casos Rubens Paiva e Riocentro, mas Marcelo acredita que a maior parte foi escondida pelo Exército.

Ora sarcástico, ora angustiado pelos 42 anos de espera pela verdade, o escritor comentou a divulgação pela Folha, na última segunda-feira, de um documento inédito que indica que Rubens Paiva morreu nas dependências do DOI-Codi, em janeiro de 1971.

O autor de "Feliz Ano Velho" disse ainda que a grande personagem da família é sua mãe, Eunice, que sofre do mal de Alzheimer. Ela se tornou uma pioneira da luta pelos direitos humanos no país logo após sair da prisão, dias depois da morte do marido.

Folha - O caso do desaparecimento do seu pai está solucionado para a família?

Marcelo Rubens Paiva - Não. Até agora, o que foi revelado a gente já sabia, só não tinha o documento. A novidade é a prova de que ele foi morto nas dependências do DOI-Codi.

Primeiro, falta saber quando ele realmente foi morto. Segundo, o que fizeram com o corpo, onde está, como foi essa operação. São os mesmos torturadores que torturaram todos os caras no DOI-Codi do Rio no mesmo período. Tenho muita curiosidade de ver esses caras prestando depoimento, o que parece que é um próximo passo.

A Comissão da Verdade está bem amparada em termos de informação?

A comissão é muito tímida. Vou ser bem fantasioso, como escritor eu gosto de fazer comparações absurdas, mas eu esperava um Kevin Costner, do filme "Os Intocáveis", uma forma de caçar os verdadeiros gângsteres com um pouco mais de atitude. A comissão tinha que bater na porta dos caras que ela quer que sejam ouvidos.

Quando ela foi tímida?

No caso do coronel Júlio Miguel Molinas, ex-chefe do DOI-Codi do Rio, lá no RS. A gente ouviu falar que, um dia depois da morte dele [1º/11], houve uma operação do Exército que cercou a casa e levou caixas e caixas de documentos. A CNV é que deveria ter chutado a porta do cara com um grupo de investigadores de alto nível, porque afinal é uma comissão oficial do governo brasileiro. Devia ter pegado essas caixas. Se por um lado o Exército vai lá e chuta a porta, a comissão pede um ofício. É tudo muito lento.

A comissão avisa a família antes de divulgar?

Não. Foi uma queixa da família. A gente não quer mais ficar lendo as coisas pela imprensa, é muito chato. A gente prefere ser avisado antes.

Qual é a sua lembrança do dia em que seu pai foi preso?

Eu tinha 11 anos. A casa toda cheia de militares com metralhadoras. Era patético porque eles achavam que era um "aparelho". E era feriado, Dia de São Sebastião. Deu praia. Em frente à minha casa, tinha uma rede de vÃ?lei famosa, que era a do Chico Buarque e da Marieta [Severo].

Ali era um point, as pessoas iam para a praia e deixavam as coisas lá em casa. Então iam chegando. Chegou o namorado da minha irmã, de 16 anos, e prenderam o cara. Chegou o neto do Caio Prado Jr., coincidentemente ideólogo comunista no Brasil, que ia para a praia, e prenderam. Era contrastante com o que aquela casa representava.

Você tem intenção de escrever sobre seu pai?

Tenho um projeto que é falar da luta da minha mãe. Descobri que a minha mãe foi muito mais importante que meu pai. Meu pai foi uma vítima da ditadura, escondeu pessoas, foi um deputado importante, foi cassado, foi para o exílio, voltou escondido, foi torturado violentamente.

Mas a grande personagem da família é minha mãe, fundadora da Comissão Brasileira pela Anistia, organizadora do movimento das Diretas-Já. Foi presa no dia seguinte ao meu pai, no DOI-Codi, saiu três dias depois. Desse dia em diante, o papel que ela teve foi o de uma verdadeira combatente contra a ditadura.


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