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Comissão comprova desaparecimento de militante pelas mãos da Aeronáutica

CIDADANIA

Comissão comprova desaparecimento de militante pelas mãos da Aeronáutica

Edmur Péricles Camargo, conhecido como Gauchão, foi capturado em Buenos Aires pela polícia argentina e entregue às autoridades brasileiras numa espécie de "prévia" da Operação Condor

Por: Tadeu Breda, da Rede Brasil Atual

Publicado em 05/02/2013,

  

Comissão comprova desaparecimento de militante pelas mãos da Aeronáutica

Pedaço da ficha de Edmur Péricles Camargo, o Gauchão, feita pelas autoridades do Rio Grande do Sul

(Imagem: Movimento Justiça e Direitos Humanos)

 

São Paulo – A Comissão Nacional da Verdade (CNV) divulgou ontem (4)  estudoreconhecendo que o desaparecimento do comunista Edmur Péricles Camargo, conhecido como Gauchão, em 1971, foi provocado por homens da Força Aérea Brasileira (FAB). De acordo com evidências encontradas no Arquivo Nacional, o militante foi capturado em Buenos Aires após articulação com autoridades argentinas e informantes no Uruguai. Assim como a história do ex-deputado Rubens Paiva, que também mereceu uma declaração formal da CNV ontem, a história da morte de Edmur já era conhecida por amigos e familiares. Faltava, porém, a declaração oficial do grupo encarregado de investigar as violações aos direitos humanos cometidos pela ditadura (1964-1985) no Brasil.

"Edmur foi arbitrariamente preso pelos órgãos da repressão argentina, em escala de voo, em Buenos Aires, e na madrugada do dia seguinte, imediatamente posto em avião da FAB, que o trouxe ao Brasil, tendo desaparecido nas mãos dos agentes públicos do Estado ditatorial militar brasileiro", escreve Cláudio Fonteles, coordenador da CNV, fazendo menção a documentos secretos da época. Gauchão foi preso no aeroporto de Ezeiza, uma cidade nos arredores de Buenos Aires, no dia 16 de janeiro de 1971. Chegou até lá em um avião da empresa chilena LAN, proveniente de Santiago, onde morava. Edmur foi um dos guerrilheiros enviados para o Chile após a libertação do embaixador suíço, Giovanni Buscher, em janeiro de 1971, e vivia oficialmente no país como asilado político.

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Na época, o Brasil enfrentava o auge da repressão sob a batuta do general Emilio Garrastazu Médici. A Argentina era governada por Roberto Marcelo Levingston, um dos três militares que implantaram uma ditadura no país entre 1966 e 1973 – antes do regime que, com uma breve pausa peronista, seria imposto pela Junta Militar entre 1976 e 1983 para vitimar mais de 30 mil pessoas, entre mortos e desaparecidos. A famigerada Operação Condor, espécie de coordenação internacional entre as ditaduras do Cone Sul que sequestrou e eliminou mutuamente seus opositores, apenas se formalizaria em 1975. Isso não impediu, porém, que os governos militares brasileiros e argentinos, quatro anos antes, se articulassem para deter Edmur – e sumir com seu corpo.

"Estamos à frente de uma Operação Condor clássica, tenha o nome que tiver. A ditadura brasileira costumava chamá-la Plano de Busca no Exterior, mas a prática é a mesma: retirar uma pessoa de outro país sem as formalidades legais, como pedido de extradição. Era uma operação clandestina entre aparelhos repressivos", conta à RBA Jair Krischke, presidente do Movimento Justiça e Direitos Humanos (MJDH), sediado em Porto Alegre (RS). Foi Krischke quem apresentou os documentos sobre Gauchão à CNV durante depoimento em novembro.

"Fico feliz que tenha sido feito bom uso do que entreguei. É isso que tem de acontecer."

 

Reconstrução

Para respaldar a versão de que Edmur Péricles Camargo desapareceu nas mãos da FAB, Cláudio Fonteles reproduz em seu estudo um documento secreto escrito pelo adido do Exército brasileiro em Buenos Aires em 17 de junho de 1971 – apenas um dia depois da detenção de Gauchão.

Na comunicação diplomática, o funcionário da embaixada relata a seus superiores que fora notificado da passagem do militante pelo país e que lhe havia sido requisitado que providenciasse sua prisão. Afirma ainda ter entrado "imediatamente" em contato com a Polícia Federal argentina – que, para sua surpresa, já havia montado um operativo para interceptar o "terrorista" em sua escala bonaerense. A prisão seria levada a cabo no dia seguinte.

"Entrou-se em contato com as autoridades argentinas, que já tinham o elemento preso, para detalhes de sua entrega às autoridades brasileiras", continua o relato. "Por volta das 05:00 do dia 17, chegou à zona militar do Aeroparque [aeroporto localizado na região norte de Buenos Aires] um avião da FAB para o qual foi transferido o terrorista, tendo o avião decolado por volta das 06:45." O informe termina com um elogio do adido militar a seu colega de armas pela presteza no cumprimento da missão. "O adido da Aeronáutica e seu substituto, presentemente já em Buenos Aires, com grande eficiência e elevado espírito de colaboração, solucionaram todos os problemas referentes à autorização para sobrevoo, utilização da área militar da Brigada Aérea etc."

Por meio de outra informação secreta da embaixada brasileira em Buenos Aires, é possível saber as razões que levaram Edmur à capital argentina: ele se dirigia a Montevidéu, no Uruguai, para supostamente submeter-se a tratamento médico.

Mas era apenas um álibi. "Ele tentava ir até a capital uruguaia para reunir-se com companheiros da luta de resistência à ditadura", reconhece Jair Krischke. "Edmur viajava com o nome falso de Henrique Villaça. Um informe secreto dá a entender que o desaparecimento de Gauchão teve o objetivo de evitar que ele executasse um possível elemento infiltrado entre os refugiados brasileiros no Uruguai." Para o presidente do MJDH, foi esse agente infiltrado – chamado Alberto Conrado e ainda vivo em Montevidéu – quem descobriu a viagem de Edmur e delatou-a ao serviço de inteligência.

Um informe mais completo produzido pela embaixada brasileira na Argentina – este com data de 23 de junho de 1971, sete dias após a prisão do militante – traz ainda o nome dos agentes que acompanharam Edmur no voo da FAB rumo ao aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro: coronel Lana e secretário Nery.

De acordo com Jair Krishke, Paulo Sérgio Nery era diplomata e morreu em 1979, pouco tempo depois de deixar o serviço secreto.

"Sua ficha funcional não pôde ser encontrada", relata. "Miguel Cunha Lanna era coronel aviador e exercia as funções de adido militar aeronáutico em Buenos Aires." Localizá-lo e interrogá-lo – se ainda estiver vivo – poderia contribuir para que o paradeiro de Gauchão seja finalmente conhecido, afirma.

Tags: edmur péricles camargo, Direitos Humanos, Ditadura, memória histórica, gauchão, comissao da verdade

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