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Morre padre Renzo Rossi, defensor dos direitos humanos no Brasil

Morre padre Renzo Rossi, defensor dos direitos humanos no Brasil

·        Nas visitas a presos, religioso levava conforto espiritual e recados

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SÃO PAULO - Na noite de segunda-feira, ex-presos políticos participavam da homenagem a Inês Etienne Romeu, única sobrevivente da Casa da Morte, centro de tortura do regime militar em Petrópolis, quando veio o informe: morrera pela manhã, na Itália, o padre Renzo Rossi. A morte do religioso, aos 87 anos, em decorrência de câncer no pâncreas, foi mais um motivo de comoção na audiência pública realizada para homenagear, na figura de Inês, as muitas mulheres vítimas de tortura, estupros e toda sorte de abusos nos porões da ditadura militar.

Padre Renzo, como era conhecido, foi amigo, confidente e parceiro dos que sofreram tortura e amargaram anos de prisão durante a ditadura militar. Nascido em Florença, na Itália, chegou ao Brasil em 1965 para trabalhar com comunidades pobres da periferia de Salvador. Numa visita à Itália, em 1970, recebeu da mãe do dominicano Giorgio Callegari a incumbência de buscar notícias do filho, preso juntamente com os freis Betto e Tito no presídio Tiradentes, em São Paulo. A conversa com Tito, que havia tentado suicidio na prisão, foi marcante. Quatro anos depois, Tito Alencar Lima se suicidaria na França.

"O que era para ser uma simples visita a um amigo, mudou a minha vida", chegou a comentar o padre numa entrevista ao portal ecodesenvolvimento.org.

Mas foi um pedido recebido diretamente na capela do bairro de São Caetano, em Salvador, para que localizasse seu filho, Benjamin Ferreira de Souza, no presídio Lemos Brito que o levou a embarcar na solidariedade.

- No presídio ele conheceu Theodomiro Romeiro dos Santos. O Theo foi preso com apenas 18 anos e, com 20 e poucos, já era um veterano de cadeia. A espiritualidade de Theo o impressionou e o levou a mergulhar naquilo que foi a grande missão da vida dele - conta Emiliano José, jornalista e comunicador, autor do livro As asas invisíveis do padre Renzo.

Foi a partir desta conversa que Renzo passou a percorrer, de ônibus, presídios de todo o país para levar conforto aos presos políticos. Conheceu os horrores da ditadura, das catacumbas que precediam as prisões. Durante seis anos, o padre visitou pelo menos 14 presídios. Chegou a ter problemas para entrar em alguns, superados quando recebeu do cardeal Dom Avelar Brandão Vilela, arcebispo primaz do Brasil, uma carta que lhe servia como uma espécie de salvo-conduto para percorrer celas.

Num depoimento sobre a prisão, Santos afirma que os presos tinham apoio da família, de setores da Igreja Católica e de alguns advogados, citando nominalmente o padre. "Aos segundos, representados pelos Padres Renzo Rossi e Cláudio Perani, santos na acepção católica do termo o que, para um materialista como eu, é difícil de admitir, seremos eternamente devedores."

Padre Renzo não ia às prisões para converter ninguém. A maioria dos presos não tinha vínculo religioso, mas precisava de um ouvido amigo. Mas o sacerdote foi além.

- Ele foi pombo-correio de uma greve de fome nacional dos presos políticos e em 1978, um ano antes da anistia, percorreu 22 cidades européias em busca dos exilados e de quem pudesse divulgar e apoiar a luta pela anistia no Brasil, como líderes europeus e dirigentes de partidos comunistas - lembra Emiliano José.

Em 1979, seu amigo Theodomiro Romeiro dos Santos teve a certeza que a lei de anistia não o beneficiaria. Havia sido o único a ter a pena de morte decretada, em 1971, que depois fora convertida em prisão perpétua e aos poucos reduzida a 16 anos. Decidiu então fugir e foi o padre Renzo quem conseguiu o dinheiro para viabilizar a fuga.

- Era o preso mais querido dele, a quem ele era mais ligado - relembra o jornalista.

No ano passado, o padre Renzo esteve no Brasil para acompanhar partes do filme As asas invisíveis do padre Renzo, que já foi finalizado e deve ser lançado no Brasil e na Itália. Segundo o jornalista, o padre estava bem e só descobriu a doença fulminante em novembro passado.

- É o retrato de um homem extraordinário, que amava a humanidade e a quem o cristianismo fez muito bem. Ele se solidarizou com os prisioneiros, mas não exercia uma atividade politica tradicional. Era um sacerdote imbuído de Cristo para amparar as pessoas que estavam sob violência - afirma.


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